sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Um poeta, um cientista e um místico entram num bar

Stalker (1979) é um filme de ficção científica baseado num romance dos irmãos Strugatski que foi traduzido para português com o título Piquenique à beira da estrada.

É um filme de FC atípico, pelo menos para padrões americanos, porque não tem quaisquer elementos visuais de fantástico ou tecnologia. É-nos dito simplesmente que na Zona acontecem coisas estranhas ou miraculosas, e um Guia local (um sherpa, um condutor de tuk tuk, um pobre diabo) leva lá pessoas clandestinamente de quando em quando, para realizarem os seus desejos.

Basicamente, Stalker é filmado num baldio. Podia ser a Tapada das Necessidades, em Lisboa. São espaços abandonados, erva daninha a crescer, tão só.

Temos de ser nós, leitores e espectadores, a imaginar.

O Poeta e o Cientista (não têm nome) perseguem ambições diferentes.

O filme usa uma só técnica curiosa: fora da Zona, no início, é a preto e branco. Quando os três protagonistas entram na Zona o mundo passa a ser a cores.

Aqui uma cena. Vale a pena terem um dia paciência para ver o filme: longo, lento, «aborrecido» para quem não treinou a disponibilidade.

Curiosamente, o livro é divertido. O filme reflecte a visão do seu autor, se não mística, pelo menos metafísica; o livro o espírito lúdico e mais realista da dupla de autores de ficção científica.

Outra curiosidade: o evento surpreendente que criou a Zona é muito parecido com o desastre nuclear em Chernobyl. Eu diria que é influenciado, não fosse um pequeno anacronismo neste meu raciocínio.

Aqui um comentário por Slavoj Zizek, um dos poucos filósofos popstar do nosso tempo.

1 comentário:

  1. "Stalker", de Andrei Tarkovski, é uma daquelas obras-primas do cinema que, tal como o "2001" de Kubrick ou o "Solaris" daquele mesmo realizador, erradicam o género ou a etiqueta "ficção-cientifica" do objecto ou artefacto artístico para o converterem naquilo que é realmente e pelo qual deve ser reconhecido: uma obra de arte intemporal, profunda e filosófica sobre o ser e a vida, sobre o ser e o tempo.
    A meu ver, "Stalker" trata do Homem tripartido na sua essência e da relação conflituosa que mantém com essas três aspectos de si mesmo, a saber: poeta (arte), cientista (saber) e guia/"stalker" (ser-aí e em devir no tempo); bem como da relação de si mesmo com os seus semelhantes.
    Grosso modo, estes três "aspectos" farão parte do mesmo homem que procura um determinado ideal, tendo a possibilidade de, na Zona, ver materializar-se esse ideal, acabando, no entanto, por sucumbir, na parte final do filme, à dura realidade do Quarto ou Sala, onde esse ideal pré-concebido, uma vez supostamente atingido, pode, afinal, não corresponder às expectativas iniciais.
    Mais, este homem (ou "o" Homem) não tem sequer a capacidade de inteligir o seu ideal nem o que quer e o que querem os outros, logo, não é capaz de reconhecer o que é em si mesmo, o que são os seus semelhantes e, por acréscimo, o que é o mundo exterior (que no filme, de certo modo, espelha o mundo interior dos personagens).
    Porém, como se entende, esta abordagem à falência do humano e à intangibilidade do ideal é apenas uma das muitas abordagens que se podem extrair desta obra.
    De resto, "Stalker" funciona também como expiação à catástrofe de Chernobyl referida no post, com os três homens a não serem senão paradigmas humanos à deriva num cenário pós-apocalíptico, em busca de um escape e de uma explicação para esse desastre escatológico.
    Seja como for, penso que a ideia de aventura, viagem ou travessia é um dos temas centrais do filme, pois, afinal de contas, o que melhor espelha e simboliza a teleologia da vida senão o conceito de travessia?

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Notas finais

As notas aqui indicadas são a junção da frequência com outras informações (caso haja: trabalhos, participação etc.; estas 'outras inform...